Coisas que aprendi na faculdade

A primeira vez que eu botei o pé na universidade, com 18 anos nas costas e nada na cabeça, eu achei que eu iria pra lá apenas pra ter umas aulas de cálculo, mexer em alguns softwares complexos, balançar uns tubos de ensaio e sair de lá com um diploma. A grande verdade é que das inúmeras coisas que eu aprendi lá dentro, acho que menos da metade foram acadêmicas, e esse texto é pra falar um pouco de como foi tudo isso.

 

Aprendi a ser, bem… a ser gente.

Homem, hétero, branco, cis e classe média. Eu praticamente gabaritei o bingo dos privilégios nessa vida, e muito por conta disso eu tinha e reproduzia várias ideias e pensamentos de quem cresceu numa bolha (e que eu me sinto realmente envergonhado quando lembro deles hoje em dia). A pluralidade de pessoas, ideias, crenças e histórias as quais eu fui apresentado quando entrei na universidade foi parte fundamental para edificar meu caráter e por mudar minha visão de mundo, e esse não é o papo do cara desconstruidão que vai te chamar pra ir assistir Bacurau ou ler Bukowski, é o papo de um cara que tinha atitudes e tecia vários comentários machistas, racistas e preconceituosos e hoje tenta seguir aprendendo para nunca regredir a isso.

Justice, Equity, Diversity + Inclusion

Foto: https://www.finearts.utah.edu/about-us/justice-equity-diversity-inclusion

Aprendi a ter que lidar com meus próprios problemas.

Não importa o quanto você se julgue independente, ter o amparo da sua família em tempo integral te deixa meio acomodado. Quando você entra no ensino superior, você percebe que não dá mais pra pedir pros seus pais irem na diretoria por causa de um professor ou de um coleguinha. E por mais que você ganhe uma autonomia maior sobre a sua vida (principalmente se for morar fora de casa), isso também significa que vai ser bem mais difícil alguém vir correr atrás pra te acudir quando der algum problema e que você vai ter que arcar com as consequências das suas decisões. Quer beber até às 5 da manhã numa terça? Vai fundo, e boa sorte pra ir pra aulas às 8h de ressaca. Quer matar aquela aula chata pra assistir futebol com os amigos? Bora, só lembra que você pode precisar dessa falta mais pra frente. Nas sábias palavras da minha mãe: Você não nasceu quadrado, se vira!

Aprendi a tomar cuidado com prazos.

Quem nunca falou pra mãe às 22 horas do domingo que precisava de uma cartolina para o dia seguinte às 7 da manhã não sabe o que é o sentimento de medo de receber uma bronca e de segurança de saber que essa cartolina vai magicamente brotar lá. Quando você chega na faculdade, você é você precisando da cartolina. Você vai poder escolher entre se manter em dia com os conteúdos e atividades ou ficar de boa e ver uma montanha de trabalho e matéria para estudar às vésperas das suas provas. Se você gosta de emoção e confia no seu potencial, vai na fé, mas eu não recomendo. Experiência própria.

Calendário e relógio de mesa plano Foto gratuita

Aprendi a ser paciente e a lidar com pessoas.

Existem algumas entidades universais do ensino superior e você com certeza vai encontrar com elas durante a sua graduação: o aluno pedante que fica fazendo perguntas que já sabe a resposta para poder mostrar que já sabe da matéria; o cara que some e aparece na véspera de entrega do trabalho pedindo para colocar o nome dele no trabalho em grupo; o aluno que não aceita mudar data de prova porque vai prejudicar o calendário todo arrumadinho dele; a pessoa irritante que quer usar qualquer oportunidade pra falar do intercâmbio dela; a turma daquele curso X que deixa o professor completamente pistola e ele desconta na turma inteira… Enfim, podia ficar o dia inteiro falando sobre esses personagens memoráveis que você vai encontrar, mas o meu ponto principal é: infelizmente a faculdade não são os Jogos Vorazes e você pode precisar de um réu primário depois de formado, então você vai ter que aprender a lidar com eles e desenvolver a sua paciência.

Aprendi que o mundo não gira em torno do meu umbigo.

Todo ser humano é moldado pelas suas experiências e vivências, tem suas próprias predileções e antipatias e, principalmente, sua maneira de pensar. A grande sacada é: somos animais sociais, e a partir do momento que vivemos em uma sociedade/comunidade, o bem e os interesses da mesma sobrepujam as predileções e as antipatias individuais. Você tem todo o direito de falar e de ser ouvido, mas quanto mais cedo você aprender que você é uma voz em meio à multidão, e não o eixo sobre o qual ela gira, mais cedo você amadurece.

Aprendi que a vida não precisa ser uma competição o tempo todo.

Você passa o ensino médio inteiro naquela pressão e competição absurda por causa de vestibular, entra na pilha dos cursinhos e da cobrança dos seus familiares e das infelizes comparações com aquele primo que formou em dois anos e meio, passou em concurso e ganha vinte mil reais por mês. Eu me lembro que quando eu entrei na faculdade, eu parecia um cão de caça espumando pela boca e querendo acabar com qualquer um que ousasse entrar no meu caminho. Se vocês tivessem noção do quanto essa mentalidade me prejudicou nos primeiros semestres da minha vida universitária e de quantas pessoas eu já vi se sabotarem por terem essa mesma visão distorcida de como as coisas funcionam, vocês iriam agora no cursinho dar um pescotapa naquele professor que fica acelerando os alunos. Você ser bom não implica automaticamente em alguém ser pior, a graduação não é uma corrida na qual você precisa dar rasteira em quem tá correndo com você e, por mais que seja uma frase bem clichê, você pode até chegar rápido indo sozinho, mas vai muito mais longe indo junto com alguém. Desacelera, desestressa e aproveita o trajeto e as companhias que essa viagem te proporciona.

 

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