Um assovio no corredor da Faculdade. Um beijo forçado na festa da Calourada. Uma “piadinha” durante a aula. Uma cantada ofensiva vinda do colega de sala.  Um “você é muito frágil” por querer tocar o surdo da Bateria. Um “joga igual homem” gritado pela torcida no amistoso da Atlética. São esses tipos de situações que as universitárias vivenciam em seus cursos. Mas, partindo disso e do princípio “respeito é bom e todo mundo gosta (ao menos deveriam gostar)”, vem a questão: existe a possibilidade de ter uma Universidade sem assédio?

 Tem sim! Vamos por partes (e com alguns exemplos)

  1. ONU na causa

A ONU criou a campanha “O Valente não é Violento” com a intenção de incentivar a mudança de comportamentos machistas, destacando o compromisso que os homens devem assumir no combate à violência de gênero, além de estimular a igualdade de gênero e o combate ao machismo na volta às aulas. Ela é formada por conteúdos – no formato de currículo e planos de aulas – que pretendem alcançar alunos e alunas da educação básica – ensino fundamental e médio – (fase mais de boa da vida, a gente só não sabia), e da graduação (dispensa comentários kk), ou seja, busca colaborar com a formação dos/das estudantes no Brasil. Para firmar essa ideia, a ONU declarou que todo dia 25 de cada mês será o “Dia Laranja”, pelo fim da violência contra meninas e mulheres. (Info:)

Um órgão de importância e de contexto internacional como a ONU mostra a importância do tema “Universidade sem assédio”, visto que as mulheres – mesmo no século XXI – são vítimas de violência, intolerância e discriminação.

  1. Universidades e suas campanhas

A Universidade – como um todo – também tem o dever de apoiar as mulheres nessa causa, promovendo conscientização, prevenção e enfrentamento à violência contra elas. A instituição deve auxiliar tanto nas aulas – estudo, professores e materiais –, quanto no uso das dependências da instituição ou até mesmo nas festas relacionadas à faculdade. Se permitir a difusão de conteúdos discriminatórios e intolerantes (machistas) dentro ou fora do campus, quem dirá que a sociedade vai respeitar e reproduzir a tolerância?

(Adendo: a Universidade é sinônimo de ensino e pesquisa para formação profissional e/ou científica à sociedade).

Seguindo as ideias sugeridas pela ONU (de novo), a UnB e a USP se propuseram a lutar por suas acadêmicas.

A UnB, juntamente com a agência das Nações Unidas, firmou um compromisso institucional – através de um memorando assinado em 2015 – de agir para a prevenção da violência contra as mulheres (acadêmicas, funcionárias, etc.). Esse acordo foi realizado devido aos relatos de machismo e violência contra mulheres dentro da instituição e em decorrência do assassinato de uma aluna, pelo ex-namorado (e colega de curso), no campus da Universidade.

A USP foi uma das 10 universidades escolhidas pela ONU (do mundo todo) para, no ano de 2016 integrar o projeto ElePorElas. A intenção desse programa é o enfrentamento à violência contra a mulher. Quem coordena tal projeto dentro da Universidade é o Escritório USP Mulheres, que incentiva projetos e iniciativas em conjunto (auxílio de grupos, coletivos estudantes e docentes) direcionados à igualdade de gêneros (tanto na prática de esportes, quanto em pesquisas interdisciplinares) e no empodeiramento das mulheres.

  1. Calourada também é gente

Não é porque o calouro e a caloura estão iniciando a vida universitária que eles devem sofrer fisicamente e psicologicamente (já basta as aulas, atividades, trabalhos em grupo, horas de sono perdidas, etc. que eles enfrentarão até o fim do curso). Nem preciso citar exemplos desses episódios.

Devido a esses B.O.s, as Universidades boicotaram trotes ofensivos e agressivos. Para não acabar com o prazer dos veteranos em zoar a calourada, elas permitiram o “Trote Solidário”, onde os cursos podem realizar o trote, mas com respeito e ajudando os outros (é aquele ditado: “fazer o bem sem olhar a quem”).

A ONU (sim, ela influenciando novamente) criou a campanha Fim do Trote Violento contra Gênero e Raça, onde estabelece dois propósitos: a) “dizer não à violência simbólica e física contra calouras e calouros nos trotes universitários”; b) “expressar publicamente um compromisso institucional a favor de mulheres, trans, lésbicas, gays, negras e negros, que há anos são vítimas da violência nos trotes.

Alguns exemplos de instituições que apoiam a ideia do trote sem violência/assédio: ONU (Ah, vá!?), USP, UFPR, UFSM, etc…

 

  1. Festa é festa, mas “Me Respeita”

E nas festas universitárias, é possível? Existe campanha de conscientização de respeito às mulheres, sim! Um exemplo é a “Calouro Folia”.

A Calouro Folia (para quem não conhece) é uma micareta, denominação brasileira para festa de carnaval fora do feriado de Carnaval. Ela acontece no Sul do Brasil (Maringá – Paraná) e é onde rolam várias atrações musicais, dança, diversão e trios elétricos . Por ser um ambiente de festa, algumas pessoas acham que podem fazer tudo, mas não é bem assim, né?

Afim de evitar constrangimentos tanto de mulheres, quanto de LGBTQ+s, a Calouro Folia criou uma campanha de conscientização e respeito a essas pessoas: “Me Respeita”. Com a intenção de aumentar o respeito e diminuir (exterminar) atitudes machistas (constrangedoras e desnecessárias). Abaixo está a representação de alguns adesivos da campanha:

 

  1. Jogos Universitários com respeito

Vamos falar de coisa boa: JOGOS! E pode ter campanha anti-machismo sim, mas temos que ir por mais partes porque existem muitas (felizmente!). Vejamos alguns exemplos:

No Jogos Jurídicos do Rio de Janeiro foi criada a campanha “Jogos sem Machismo”, organizada pelas alunas de Direito da UERJ, UFRJ, PUC, UCP, UNIRIO e UFF (Niterói e Macaé), com o intuito conscientizar as atléticas e delegações que participam do evento para pôr fim no machismo e erradicar os casos de opressão às mulheres no JJRJ. Inclusive, essa campanha conseguiu a aprovação de mudanças no estatuto da Supercopa Universitária para a punição em casos – coletivos ou individuais – de ameaças ou incitações a violência – por meio de condutas escritas, verbais, corporais, etc. – contra o gênero feminino, a raça/etnia, a identidade de gênero, a condição social, a religião, a orientação sexual, a deficiência (física ou mental), e quaisquer outras vulnerabilidades.

As universitárias das faculdades de medicina do DF formaram o movimento “Conte Comigo” voltada a auxiliar as participantes do Intermed Centro-Oeste em casos de desrespeito e violência contra elas. Para isso, mulheres capacitadas para acolher aquelas que sofreram com atitudes desagradáveis (machismo, opressão, xingamentos e etc.) no evento e receber suas denúncias, utilizam crachás e pulseiras diferenciadas.

O Jogos Universitários de Comunicação e Artes criou e implementou o projeto “JUCA da Diversidade” que consiste no serviço de assistência e orientação para situações que envolvam qualquer forma de atitude discriminatória (machismo, LGBTIfobia, racismo, etc.), por meio do diálogo com atletas, torcida, diretoria, vigilantes e demais pessoas envolvidas no evento.

Esse projeto não é voltado somente à questão da violência/assédio contra mulheres, envolve todas as formas de expressar-se que agridam (verbal ou fisicamente) qualquer forma de diversidade. Um exemplo é a adição de uma cláusula que protege os atletas perante cantos e gritos opressores da torcida, outro é a inclusão de cláusulas que coíbem qualquer ação discriminatória/preconceituosa em quadra.

O “Jogos sem Assédio” surgiu como uma campanha para o Jogos Jurídicos Paranaense para promover a união entre as mulheres que participam do evento, buscando não serem alvejadas/rodeadas por atitudes machistas (assédio, violência, xingamentos, etc.). Aquelas e aqueles (sim, homens também apoiaram a causa) que aderiram a ideia utilizaram camisetas e pulseiras para demonstrar o incômodo causado por essas atitudes constrangedoras, além de mostrar a força da campanha.

  1. Atlética e Bateria também respeitam as minas

As principais fontes de integração e diversão da faculdade são a Atlética e a Bateria. Portanto, elas devem também ser os lugares mais receptivos e atuar em defesa dos seus associados/associadas (participantes).

Um exemplo topzera de Atlética e outro topster de Bateria que prezam pela proteção das alunas são, respectivamente, a ECAtlética e Os Federais.

ECAtlética é a A.A.A. dos cursos da Escola de Comunicação e Artes da USP. Ela apoia o projeto “JUCA da Diversidade”, além de mostrar sua força feminina (como podemos ver na imagem abaixo) com a bandeira e campanha da própria Atlética: “ECA-USP contra o machismo”.

Os Federais é a Bateria do curso de Direito da UFPR. Ela apoia a campanha “Jogos sem Assédio”, demonstrando isso em um vídeo idealizado e realizado por suas/seus integrantes  além de incluir a participação feminina em qualquer instrumento da sua escolha (sem pré-julgamentos a respeito da capacidade da mulher tocar determinado instrumento).

http://https://youtu.be/TlwwjTUKCSM

Pra fechar…

A Universidade, a Atlética, a Bateria, as festas, os eventos e afins devem promover a conscientização, prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres, os LGBTIs, as negras, os negros, …!

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here