Marcela Galassi e os troféus do JOIA Maringá

No texto de hoje, vamos falar de um assunto muito relevante e que ainda precisa ser debatido: mulheres no esporte. Você provavelmente já escutou que “esporte não é coisa de mulher”. Mesmo parecendo absurda, essa frase perdurou por muito tempo e ainda é pronunciada por alguns homens e até mesmo mulheres no mundo inteiro. Ainda estamos em uma sociedade que favorece os homens, no entanto, essa realidade vem mudando para melhor. Hoje, o cenário esportivo é um pouco diferente graças às mulheres que lutaram e seguem lutando para quebrar esse preconceito.

Aqui mesmo no Brasil, temos exemplos fantásticos de mulheres que mostraram que o esporte é sim coisa de mulher. Temos Maria Lenk, que com apenas 17 anos foi a primeira sul-americana a participar de uma Olimpíada, em 1932. A nadadora não conseguiu chegar ao pódio, mas seu feito é considerado um marco para a história do esporte nacional, pois até hoje, ela é vista como a principal nadadora brasileira da história e única mulher do país a entrar para o Hall da Fama da natação, tendo um campeonato renomeado em sua homenagem (Troféu Maria Lenk). Outro exemplo nacional é a jogadora Marta, que já foi eleita a melhor jogadora de futebol do mundo pela FIFA em cinco oportunidades. Em plena Copa do Mundo, é importante mostrar que o Brasil não é considerado o país do futebol apenas pelos homens, pois temos mulheres igualmente importantes no cenário mundial.

Não é segredo que as mulheres vêm desempenhando um papel fundamental no esporte, dentro e fora das quadras. Buscando trazer esse tema para a nossa realidade, entrevistamos algumas mulheres que foram diretoras de esporte em suas atléticas e que mostraram, assim como os exemplos citados anteriormente, que o esporte é sim coisa de mulher. Essas diretoras destacaram-se em suas atléticas e vieram contar um pouco de suas motivações no esporte, as dificuldades que encontraram em assumir a diretoria e a importância de termos mulheres diretoras, em um ramo que o machismo ainda impera, mas que segue mudando graças a luta de mulheres como elas.

Começamos conversando com a Ananda Portela, atual diretora geral de esportes da Atlética de Comunicação da PUC-SP, que teve como principal motivação a paixão pelo esporte e a vontade de fazer o esporte acontecer dentro da PUC. “A principal motivação é que gosto muito de esporte, sempre fui muito apegada ao esporte desde criança. E eu sempre fui da atlética, desde que entrei na faculdade. Acompanhei muito de perto a gestão de uma das minhas melhores amigas, então tive uma vontade enorme de fazer parte disso, de assumir a diretoria, principalmente por ter acompanhado esse trabalho”, contou.

Ananda também contou que uma das principais dificuldades encontradas foi a questão financeira e a pequena quantidade de atletas. “Sem dúvida alguma, a principal dificuldade é financeira, pois não recebemos nenhum tipo de aporte da faculdade e nem da universidade, então se torna muito difícil manter o esporte sem dinheiro. Os atletas acabam tendo que arcar com uma parte dos custos. A quantidade de atletas também é um problema dentro da nossa atlética, então existe um projeto e um processo de aproximação dos atletas e dos alunos para mostrar o que é ser um atleta da PUC”.

Ananda representando sua atlética no voleibol

Apesar de não ter conquistado o título dos Jogos Universitários de Comunicação e Artes (JUCA), Ananda acredita que a evolução interna foi muito importante dentro de sua atlética nos últimos anos. Em sua gestão, inspirou-se em seu pai, que já foi atleta e técnico, e sua disciplina no esporte a ajudou muito com a diretoria. “Como atleta, sendo jogadora de voleibol, tem muitas jogadoras que admiro. Mas em especial a Gabi e a Natália da seleção brasileira de voleibol, são duas jogadoras que eu gosto muito, me inspiro muito nelas, tanto pela potência no ataque quanto pelo comportamento fora de quadra”, contou.

Outra diretora que tivemos o prazer de conversar é a Nathalia Mohr, atual diretora de esportes da UTFPR – Medianeira, que contou a sua principal motivação em assumir a diretoria. “Então, eu entrei em 2016/2 na UTFPR e antes mesmo de eu entrar na faculdade eu já queria estar dentro da atlética. Eu já havia pesquisado sobre, e me identificava muito com esportes e liderança, então entrei primeiramente como atleta de handebol, até ser convidada para assumir a diretoria de handebol feminino. Permaneci como diretora durante um semestre e aí o , diretor de esportes na época, me fez o convite de entrar na diretoria geral ao lado dele. Era meu objetivo quando comecei na diretoria do handebol, e acredito que a maioria deve ter o objetivo de crescer e destacar-se, não ficar estagnado, então aceitei de cara o convite de entrar ao lado do Pé (Luiz Felipe)”, contou.

Nathalia também nos explicou um dos seus maiores desafios como diretora de esportes. “Nós vínhamos de um título do JOIA Oeste em 2016, em Medianeira, e em 2017 não poderia ser diferente, mais difícil do que conquistar um título é mantê-lo. Trabalhar na diretoria de esportes é muito gratificante, requer um contato direto com os atletas, com suas dificuldades e necessidades do momento, e por ser atleta já se torna mais fácil e mais prazeroso”.

Durante seu tempo como diretora, Nathalia já conquistou o 1º lugar geral no JOIA Oeste 2017, o 1º lugar geral no JOIA Fronteira 2017 e atualmente conquistou o 3º lugar geral nos Engenharíadas Paranaense (EP) 2018, a melhor classificação de sua atlética na competição, até então. “No EP 2017 ficamos com o 8º lugar geral, não colocávamos uma meta de ficar entre os 5 primeiros, na época brigávamos para permanecer na primeira divisão do Engenharíadas. Esse ano, na primeira reunião da diretoria que tivemos, colocamos a meta de ficar no mínimo em 5º lugar, e trabalhamos em cima disso. Foram técnicos contratados, quadras alugadas, treinos até tarde da noite na própria universidade, que foram muito bem recompensados. Acho que o EP 2018 foi a prova viva de que planejamento e atenção faz toda a diferença no final”!

Nathalia ao lado direito da foto

Falando um pouco da inserção das mulheres no esporte e nas atléticas, a Nathalia nos contou do que pensa sobre esse assunto. “A atlética deve ser um espaço seguro e de representatividade onde qualquer atleta possa encontrar estrutura para o desenvolvimento esportivo. Infelizmente, ainda vivemos em um mundo machista e por isso tentamos de todas as formas que isso não atinja nossa atlética. Nós pregamos em todas as nossas assembleias a questão da intolerância, não existe distinção, inclusive meu xodó e aposta desse ano para o EP foi a equipe de voleibol feminino que conseguiu chegar longe indo até a semifinal dos jogos! Acompanhei elas mais de perto, calouras boas entraram e cuidamos para que todas se sentissem abraçadas pelo nosso Porcão. Por fim, uma atlética é 99% dos seus atletas, são eles que nos levam a níveis mais altos e cada sacrifício que foi feito até hoje está sendo recompensado”!

Conversamos também com a Marcela Galassi, ex-diretora de esportes da Atlética das Engenharias da UEM (Epidemia). Marcela conta que o principal motivo de assumir a diretoria foi poder continuar o trabalho que tinha começado em 2015. A inserção dos treinos para algumas modalidades que antes não treinavam (judô, natação, atletismo), não poderia acabar de um ano para o outro. Os atletas também tiveram grande influência em sua decisão. “Eu me apeguei demais a todos eles e queria continuar próxima, ajudando e acompanhando tudo“, contou.

A Marcela foi a primeira diretora de esportes da Epidemia e em sua gestão, conquistou o hexacampeonato do Engenharíadas Paranaense e o pentacampeonato do JOIA Maringá. Ela nos contou um pouco da importância de ser a primeira diretora mulher e a influência disso para as mulheres, não apenas no esporte. “Na minha opinião, é poder mostrar que mulher também é capaz. Na engenharia, a maioria dos acadêmicos são homens e o esporte é um ramo muito masculino. Então foi muito legal mostrar (e perceber também) que não importa o sexo e sim o quanto você se dedica àquilo que vai fazer”.

Marcela Galassi e os troféus do JOIA Maringá

Apesar de ter conquistado títulos de expressão como diretora, não pense que o trabalho dela foi fácil. Marcela nos contou também algumas de suas principais dificuldades, quanto à implementação dos treinos de algumas modalidades em sua atlética. “Natação e xadrez até que rolou bem. O atletismo foi bem difícil no começo, principalmente no feminino, pois tinha muita gente que até se interessava em competir, só que falavam que não iriam treinar pois treinar atletismo é chato. O fato do horário ser o mesmo de algumas modalidades coletivas pesou um pouco também, porque sempre preferiam o coletivo. O judô foi uma das modalidades que acabou não dando certo, a maioria dos nossos atletas já treinavam e não se interessaram pelos nossos treinos, todo treino dava duas ou três pessoas no máximo, o que prejudicou bastante a implementação da modalidade”.

Por fim, entrevistamos a Yanne Toledo, que iniciou sua trajetória como diretora de esportes na Atlética – A.A.A IV de Junho, e hoje é atual diretora de esportes da Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE), em Santos. Ela conta que a principal motivação de querer continuar a ser diretora de esportes foi a paixão pelo esporte, que vem desde criança, e o desejo de oferecer um melhor ambiente para a prática esportiva. “Eu iniciei como assessora de voleibol da atlética, em 2014, e no meio do ano o atual diretor de esportes me convidou para assumir o lugar dele, mas como estava no meio do ano, não foram necessárias grandes mudanças na questão de planejamento esportivo. No ano seguinte foi o ano efetivo que assumi o cargo”, contou.

Yanne também contou seu início como diretora de esportes da FUPE e a dificuldade que encontrou inicialmente. “Em 2015 foi meu último ano de graduação, quando sai da diretoria de esportes da atlética. Consequentemente, no ano seguinte, entrei como diretora de esportes da FUPE na Baixada Santista, então toda parte de gestão da conferência Santos sou eu quem faço. Desde ofício, reunião com a secretaria de esportes, até mesmo o contato com as atléticas e atletas, isso tudo com o auxílio da FUPE São Paulo”. No entanto, por ser jovem e mulher, ela se deparou com uma de suas primeiras dificuldades no meio esportivo, que ainda é uma dificuldade para muitas mulheres, não só no esporte.

“Encontrei um certo olhar de preconceito, por ser uma área com muitos homens, acontecia sempre uma piadinha, então isso me incomodava muito. Eu tinha que mostrar o triplo de trabalho, mostrar por que eu estava ali, por que sempre tinha aquele papo de que eu estava ali por que alguém colocou, ou estava saindo com alguém, então essa foi a minha maior dificuldade inicialmente”, contou.

Liga do desporto universitário – pela confederação brasileira de desporto universitário

Dentre outras dificuldades que encontrou, Yanne citou o fato de que a estrutura para a prática do esporte universitário no Brasil é muito precária, se comparada a outros países. “A maioria das universidades não possuem quadras oficiais. As secretarias de esporte também são fatores que dificultam bastante, pois ainda existe um certo preconceito das mesmas com os eventos universitários”.

Mas ela acredita que o esporte é uma ferramenta que pode trazer consequências positivas em diversos fatores, tanto no âmbito social, educacional ou como pessoa, e busca isso diariamente em sua profissão. “Acredito que as ferramentas com que o esporte consegue trabalhar me motivam. Todos aqueles que já passaram pelo esporte algum dia, o mínimo que seja, tiveram um grande benefício e isso contribui na personalidade de cada um. Os países mais desenvolvidos hoje economicamente e a nível educacional são países que investem altamente no esporte. Utilizam isso como uma boa ferramenta. Então é isso que me motiva a querer continuar a ser diretora de esportes, a querer mudar, a querer oferecer o melhor, por que o esporte consegue ser tanto um ambiente de prazer, como um ambiente de trabalho, consegue ser tudo”.

Hoje conhecemos um pouco mais dessas mulheres fantásticas que já estiveram à frente da diretoria de esportes de suas atléticas. Todas mostraram que o sexo não as define e que o esporte é um ambiente inclusivo e que todos podem participar. Conhece a história de alguma mulher que também tem essa paixão pelo esporte? Conta pra gente!

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