A criação de uma nova atlética é, de fato, um processo muito trabalhoso e em vários pontos pode gerar grandes complicações, envolvendo vários fatores como escolha de cores e mascotes, estruturação de gestão, elaboração de estatuto ou até mesmo discussões sobre a criação ou não da instituição. Esse processo pode se tornar ainda mais trabalhoso quando essa nova atlética é fruto de um processo de junção/fusão de duas ou mais atléticas já existentes.

As junções entre atléticas ocorrem por vários motivos, sejam eles quais forem é sempre importante lembrar que não se pode simplesmente passar a “borracha” por cima da história de alguém e apagar tudo que antes existia ali. Criar uma nova atlética, com novas cores, novos mascotes, novos hinos e várias outras novidades a partir de algo já existente e bem estabelecido é um processo de enorme complexabilidade e que deve ser feito de forma clara e delicada para evitar grandes confusões.

Exemplificando de forma prática como o processo de fusão de atléticas está crescendo no mundo universitário, trago os casos de minha universidade, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). De 2016 para 2018, pode-se elencar a fundação de três grandes novas atléticas e a inclusão de várias outras em atléticas já existentes dentro da UFU.

Umas das novas atléticas criadas foi a Associação Atlética Acadêmica Biológicas (AAAB), representado os cursos de biologia, biomedicina e biotecnologia, da qual me orgulho muito de ser atual presidente. A AAAB foi fundada em dezembro de 2017, fruto da junção de outras duas atléticas, a Atlética Biologia e Atlética Cientifica (Biomed + Biotec).  Ambas as duas atléticas, “mães” da atlética biológicas, já possuíam grande tradição e história dentro da UFU, participando cada uma de jogos universitários e eventos dentro e fora da instituição há bastante tempo.

Atlética Biológicas

A ideia de junção já pairava os ares das duas atléticas que originaram a AAAB desde 2016, quando outras 2 grandes atléticas surgiram dentro da UFU frutos de processos de junção, as atléticas Agrárias e Humanas. Durante várias conversas internas foi percebido que ambas as duas atléticas, biologia e cientifica, passavam pelas mesmas dificuldades, envolvendo a falta de atletas, a dificuldade na formação de times, problemas com arrecadação de dinheiro e principalmente dificuldade em proporcionar ou se quer visualizar o crescimento das atléticas de forma independente. Foi então que em setembro de 2017 começaram as reuniões em conjunto para a possibilidade de criação da AAAB.

Durante essas reuniões, vários pontos foram discutidos de modo a fazer com que tudo fosse feito da forma mais clara e direta. As duas atléticas compartilharam várias informações como caixa, histórico de competições, número de times, atletas destaques, potencialidades e principalmente elaboraram conjuntamente o roteiro para os próximos passos da junção.  Ao fim, assembleias e votações foram realizadas e teve-se a aprovação da fundação da AAAB. Mas como diria o poeta, nem tudo são flores, inúmeros problemas apareceram e pode se dizer que até rixas foram formadas durante o processo de escolha de mascote e cores, e também principalmente com antigos gestores das atléticas envolvidas. Alguns pontos são fundamentais para a criação dessa nova atlética.

Atlética Agrárias

Identidade

Sem dúvidas um amor já existia por parte dos sócios e envolvidos nas duas antigas atléticas, e entender que não estávamos destruindo essas história e sim construindo uma nova sem apagar o passado foi bem difícil para algumas pessoas. Ambas as atléticas tinham suas próprias identidades, cores, baterias, cheerleaders e símbolos, e simplesmente trocar aquilo por algo novo não é fácil. A criação das novas marcas da nova atlética foi feita em conjunto e basicamente reuniu coisas da antigas atléticas, como a cor de cada uma, além do mascote que é meio que uma “fusão” das antigas AA’s: Lagarto + Fênix = Dragão. É de grande importância pensar em sempre manter na nova atlética algo do passado de ambas as instituições que deram origem a nova, mas sempre inovando.

Esportes

Pode se dizer que nesse quesito há três grupos: dois com atletas antigos, um de cada atlética antiga e um novo com os novos atletas formado principalmente por calouros. Atrair esses grupos para participar esportivamente da atlética não é algo simples, pois tem que se primeiro pensar que há resistência dos atletas antigos em jogar por algo novo e ainda conseguir no meio da resistência atrair novas pessoas a jogarem. Outro ponto a se enfatizar é que antes as gestões estavam acostumadas a trabalharem com uma quantidade bem inferior de alunos, e agora lidam com o dobro, logo pode se concluir que novos problemas virão, como a seletividade dentro de times e também problemas relacionados a elevação do nível esportivo, como a necessidade de técnicos mais qualificados e material esportivo de melhor qualidade.

Produtos

Tem-se agora uma nova marca, com novas cores e novos símbolos, e tem-se a necessidade de criar a partir daquilo uma nova linha de produtos, isso sim pode se falar que começa do zero, visto que você tem que criar algo novo que seja atrativo para alguém que já tinha costume e era consumidor de produtos das antigas atléticas. As comparações dos produtos atuais com os antigos virão de todos os lados, mas deve-se sempre pensar que uma nova identidade tem de ser formada respeitando as coisas do passado. Discussões bobas virão à tona, coisas que você sequer pensaria que poderia ser discutidas, como número de pontas em um gorro ou frases de efeitos em camisetas. O fundamental a se lembrar é que sempre deve-se prezar pelo bem maior da atlética, logo ao criar um novo produto, a aprovação de tal pelos associados e alunos dos cursos é fundamental, afinal eles serão os compradores.

Cheerleaders Biológicas

Bateria e Cheers

A ascendência do movimento de baterias universitárias e do movimento de cheerleader dentro das atléticas é clara, e é muito importante em processos de junções de atléticas prezar pela integridade desses grupos também. Ambas as duas atléticas antigas possuíam bateria e cheerleaders, e a junção também interferiu em muito nesses grupos. As baterias podem ser vistas como um coração para a atlética, onde por meio dos instrumentos e batidas se pulsa o amor dos alunos pelos seus times, e mexer com isso de fato é muito complexo.

Então este ponto deve ser tratado com mais cuidado ainda. Alinhar as conversas entre as duas baterias foi fundamental, trabalhando em pontos básicos, desde condições de instrumentos de cada bateria e também alinhamento de trabalho e marcação de cada mestre, pensando sempre no novo produto que se terá e na qualidade da nova bateria formada, porém sempre mantendo por essa nova bateria o mesmo amor que estava presente nas que lhe deram origem. Quanto ao cheerleading pode se falar que a criação de um novo grupo a partir de dois já existentes também não é algo fácil, visto que deve se pensar que agora há um número bem maior de atletas que em alguns casos possuem níveis diferentes, e por isso precisam passar por um nivelamento coletivo, novos objetivos e principalmente deve-se pensar na qualidade da equipe, pensando muito no investimento em novas estratégias de caixa e treinamento.

Jogos universitário e eventos

Os eventos são pontos fundamentais para as atléticas, e pode se afirmar que são alternativas fantásticas para arrecadação de caixa. É fundamental em processos de junção ter o alinhamento sobre o perfil do sócio da nova atlética, pensando então qual seria o estilo de evento, quais as bebidas, músicas, temas e até valores se terão nos novos eventos da nova atlética, sempre pensando em pontos que no passado das duas antigas atléticas podem não terem dado tão certo. O alinhamento por parte da gestão para organizar eventos de qualidade é fundamental, além disso deve-se pensar em quais jogos universitários a atlética estará envolvida, procurando sempre escolher algo que seja adequado ao perfil pensado para a atlética.

Regularização

O primeiro ano da nova atlética de fato será bem complexo, e deve se pensar em pontos básicos como a formação da gestão, estruturação de cargos e regimento interno. Na AAAB os cargos administrativos foram dobrados e ocupados por duplas, sendo formados por um membro de cada atlética antiga, logo então temos dois presidente, dois vices e assim por diante, de modo a não sobrepor uma atlética a outra e construir juntos a nova atlética e sempre ter um toque das duas antigas atléticas nas novas decisões. Regularizar a atlética também é um ponto fundamental e deixar tudo bem mais didático possível e escrito em estatuto, deixando claro pontos como assembleia geral, eleições e penalidades é fundamental. A partir da regularização, um CNPJ pode ser tirado para a instituição e assim fica mais fácil o trabalho de pontos importantes, como o financeiro.

Sem sombra de dúvidas, o processo é bem trabalhoso e mais uma vez repito que deve ser efetuado com grande cuidado e cautela para que se evite confusões e rixas dentro dos cursos e da atlética. Conversando com a atual presidente da atlética Agrárias da UFU, Mariele Harnish, uma instituição que também provém de uma junção, eu obtive o seguinte relato:

Acho que esse processo das junções é algo inevitável em algumas instituições (principalmente na nossa). Hoje em dia, todas querem se destacar e pra isso precisam de muitos atletas, coisa que as vezes um curso só não tem, aí quando junta vários cursos a oportunidade vem. Quando decidimos realizar a junção das nossas atléticas (antiga Agronomia e MVZ) e fizemos a Agrárias, foi com o propósito de tornar-nos mais competitivos e também porque uma Atlética meio que complementava a outra, enquanto um lado tinha em sua maioria atletas masculinos, no outro a grande parte era feminina. Todo esse processo de união durou cerca de seis meses e a maioria dos problemas apareceram no pós-junção, onde vimos que antigos costumes e tradições não se encaixavam mais dentro da nova Atlética, o que refletiu bastante na torcida e nos atletas. Mas mesmo com esses problemas vejo a junção como positiva, e mesmo com os pontos negativos tivemos um crescimento muito grande e com certeza se estivéssemos separados, não teríamos os resultados que temos hoje dentro e fora de quadra”.

De fato, as junções se fazem necessárias por diversos motivos, porém, ainda há muita resistência nesses processo, mas é inegável que as novas atléticas geradas desses processos são instituições que vêm obtendo maior visibilidade, melhores colocações em competições e um nível esportivo bem mais elevado. É necessário manter em mente durante os processos quais são os reais objetivos, para sempre ter com isso algo bem produtivo, colaborando cada vez mais para o crescimento e evolução do esporte universitário.

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